Caça à Falsa Economia

 A locomoção das pessoas e o transporte de mercadorias são inevitáveis. Esses deslocamentos provocam a queima de combustíveis que lançam gases nocivos na atmosfera prejudicando toda a população. As indústrias automobilísticas e as fábricas de motores se empenham em produzir veículos cada vez menos poluentes.

            No que diz respeito aos caminhões, para atender à sétima fase do Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve P-7), a maioria dos veículos movida a óleo diesel produzida a partir de 2012 deve usar o arla 32, reagente químico à base de ureia que tem por objetivo reduzir a emissão de gases poluentes na atmosfera. O grande problema é quando motoristas e empresas, na ilusão de economizarem, acabam adulterando o arla 32, e, em caso extremo, nem colocam o produto.

            Para tentar coibir essa prática, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) realizara, recentemente, a Operação Atmosfera.

            Segundo a lei, a partir de 2012, veículos movidos a diesel, que utilizam o sistema SCR, são obrigados a utilizar o arla 32. “Fiscalizamos a presença do arla”, afirmou Luís Carlos de Goes Maciel Júnior, inspetor da PRF. “A fiscalização que é feita pela primeira vez no Brasil”.

            Um dos pontos de fiscalização foi na balança do km 296, da rodovia Régis Bittencourt, sentido São Paulo/Curitiba. O arla era retirado do tanque específico e com o uso de um refratômetro, aparelho que analisa a concentração exata do produto, a concentração era medida. A exata é de 32%, mas a fiscalização ainda permitia uma margem entre 30 e 34%. Caso o produto estivesse fora das especificações, o motorista era autuado pela PRF com base no código de trânsito nacional e pelo Ibama com base no código ambiental. Em caso de autuação, o cavalo era retido até ser normalizado o arla. A carreta podia ser atrelada a outro cavalo-mecânico.

            As adulterações detectadas no sistema são consideradas crimes ambientais. Além de multa do Ibama, que varia de R$500,00 a R$10.000,00, o responsável poderá responder criminalmente. Por parte da PRF, identificada a adulteração era lavrado Auto de Infração de Trânsito por alteração nas características originais do veículo, conforme art. 230, VII do Código de Trânsito Brasileiro, que prevê multa de R$127,69, além da perda de 5 pontos na CNH e a retenção do veículo para regularização. Em caso de transportadora, ela será responsabilizada.

AUTUAÇÕES

            O Ibama verificou se a qualidade do arla utilizado cumpre as exigências da lei, uma vez que foram notificados casos de adulteração com adição de água e até de urina. “O Ibama vai fiscalizar toda a cadeia do arla. Começou pelos caminhões, mas irá verificar os postos de abastecimento com apoio do Inmetro”, explica Rizza Regina Oliveira Rocha, analista ambiental do Ibama. “Um dos caminhoneiros autuados estava com arla com índice de apenas 15%. As multas foram para a empresa proprietária do caminhão. Mas existem os bons exemplos como o da transportadora que abastece seus caminhões na garagem e fornece galões de arla 32 para que seu motorista complete com produto correto. Uma transportadora chegou a demitir um funcionário que não cumpriu as normas e abasteceu colocando produto adulterado”.

            Esse motorista que tinha no veículo arla 15% tomou três multas: do Ibama, por alterar o arla, R$4.100,00, outra por usar produto inadequado, R$3.600 e uma da PRF de R$127,90, mais cinco pontos na carteira e ficou retido até regularizar a situação.

            Um esquecimento poderia ter custado muito caro a João Silvério. Com 46 anos de idade e 20 de estrada, ele simplesmente esqueceu de verificar o nível de arla no tanque. “Vim de Santa Catarina descarregar leite em um supermercado em São Bernardo e quando estava saindo do local percebi que o motor do meu caminhão começou a ficar mais fraco”, conta Silvério. “Eu ia abastecer no posto logo ali na frente, mas a blitz me pegou primeiro”. Como os policiais da PRF perceberam que não houve má fé do motorista, retiveram os documentos do caminhão e permitiram que ele fosse abastecer e voltasse para pegar os documentos.

            Menos sorte teve Clodoberto Assunção. Ao ter o arla de seu caminhão analisado, descobriu que o teor de pureza estavam em 29,7, ou seja, 0,3 abaixo da tolerância. “Eu fiz dois abastecimentos em postos na estrada e estou aqui”, disse surpreso Assunção. “Eu sei de todos os benefícios que o arla 32 traz, não sou ladrão e sei que colocar o arla adulterado é crime. Não tem porque usar esse tipo de produto. A PRF e o Ibama estão verificando os caminhões, mas deveriam verificar primeiro os postos de combustível. Ou será que a gente vai ter que andar com esse aparelho para verificar a pureza do arla antes de abastecer?”.

            Não teve jeito. Ele foi autuado com as três multas e precisou ligar para a transportador para que viessem regularizar a situação do caminhão com a retirada do arla contaminado e a colocação do produto correto.

            Mas de todos os caminhões inspecionados, o caso mais grave foi o de um caminhão que estava totalmente adulterado. A suspeita surgiu quando o motorista teve dificuldade em abrir a tampa do tanque de arla. Só abriu com auxílio de um martelo. Um policial da PRF entrou embaixo do caminhão e descobriu um chicote para ligação clandestina. Por fim, dentro da cabine, foi encontrado um botão que ao ser acionado burlava o sistema passando a informação de que havia arla, sem ter. Um chip responsável por “enganar” o sistema também foi encontrado. O motorista disse que em dois anos, nunca abasteceu com arla. “A proprietária do caminhão receberá todas as multas cabíveis e o caminhão ficará retido até que a situação seja regularizada”, explicou o policial da PRF. Cabisbaixo sem querer falar com a imprensa, o motorista assumiu que sabia que seu caminhão estava adulterado. “Sou empregado. Cumpro ordens”, disse.

            A operação verificou 250 veículos, lavrou 18 autos de infração ambiental por causar poluição totalizando cerca de R$60.000,00, 22 boletins de ocorrência policial de transporte de produtos perigosos, 38 multas PRF (alteração de características originais) totalizando cerca de R$5.000,00, 18 Autos de Infração por transporte irregular de Produtos Perigosos, totalizando cerca de R$ 27.000,00; apreensão de 34 toneladas de alimento sendo transportadas em tanque destinado ao transporte de produtos perigosos e 17 caminhões apreendidos.

O QUE É ARLA 32?

            Arla 32 é uma solução de ureia de alta qualidade e pureza. Um produto muito fácil de usar.

            É um reagente usado juntamente com o sistema de redução catalítica seletiva (SCR) para reduzir quimicamente as emissões de óxidos de nitrogênio presentes nos gases de escape dos veículos a diesel. O arla 32 é uma solução a 32,5% de ureia de alta pureza em água desmineralizada que é transparente, não tóxica e de manuseio seguro. Ele não é explosivo, nem inflamável nem danoso ao meio ambiente. Não é um combustível, nem um aditivo de combustível e precisa ser utilizado em um tanque específico em seu veículo diesel SCR. O abastecimento é feito de forma semelhante ao diesel. Se você derramar arla 32 em suas mãos, basta lavá-las com água.

            O consumo médio é de 5% do consumo de diesel. Serão utilizados cerca de 5 litros de arla 32 para cada 100 litros de diesel.

            O arla 32, que já esteve a R$59,90 o galão de 20 litros, com o aumento da demanda caiu para R$49,90, ou 2,495 por litro. Mas se for comprado nas bombas de abastecimento dos postos, esse preço cai para R$1,759 por litro. Se é possível rodar 20 km com um litro de arla 32, cada km/rodado de arla custa R$0,08795 por quilômetro rodado. Em uma viagem, ida e volta, ao Rio de Janeiro (+ ou – 870 km) o custo do arla 32 será de R$76,51. Um valor muito pequeno para correr o risco de ser multado, ter o caminhão apreendido ou danificado.

Texto: Francisco Reis

Fotos: Roberto Silva

Fonte: Revista Caminhoneiro. (www.revistacaminhoneiro.com.br)

Criado em: 30/03/2020
Ultima Alteração: 08/08/2018
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